Comer uva direto do pé. Saborear vinhos produzidos ali mesmo. O cenário é a Provence, na França. O roteiro é especial, feito todo de bicicleta. Sem pressa. O único perigo deste passeio é ficar tão inebriada pela magia do lugar e acabar se perdendo. Aconteceu comigo. Estava de tal maneira encantada que esqueci de seguir o mapa. Fui socorrida por paysans que trabalhavam em um vinhedo. Descobri que não conseguiria mais alcançar meu grupo. Uma simpática senhora me levou até sua casa para que eu telefonasse para o meu guia. Enquanto esperava ser resgatada, minha salvadora me serviu um copo de vinho branco (aqui no Brasil teriam servido um cafezinho, mas na França o costume é um vinhozinho) que ficou ainda mais saboroso quando soube que era produzido pela família dela há cerca de duzentos anos. Saí de lá encantada. Descobri que os franceses do sul são adoráveis.
Jonathan, o guia, me levou ao encontro do grupo num pequeno vilarejo. Éramos oito casais amigos e embora ninguém fosse atleta, decidimos fazer esta viagem de bicicleta com a empresa canadense Butterfield & Robinson, especializada em viagens de bicicleta e caminhadas, com conforto e sofisticação. Depois desta pausa pedalamos mais alguns quilômetros por estradinhas onde não passava praticamente nenhum carro e onde o visual era uma sucessão de vinhedos, campos floridos e pomares, até chegarmos à cidade medieval de Aiguèze. Um almoço típico provençal nos aguardava num auberge. No final da tarde, chegamos no nosso hotel, onde ficamos hospedados nas duas primeiras noites da viagem: Château de Moncaud, um castelo do século XIX, com jardins lindos e uma bela piscina. O jantar foi digno de gourmet, acompanhado de ótimos vinhos Côtes du Rhône.
No café da manhã _ que cada um toma a hora que quiser, Caroline, nossa guia, nos deu a programação do dia. Além de um roteiro detalhado do caminho a seguir, levávamos também o mapa da região com o itinerário de cada dia marcado com cores diferentes e um guia de turismo específico com a descrição diária da nossa pedalada: quantos quilômetros seriam percorridos, em que tipo de terreno; os vilarejos que iríamos passar e tudo o que tinha de interessante no caminho. Assim, tínhamos autonomia para seguir no nosso ritmo. Neste dia deveríamos pedalar em torno de 40 km. Nossas bicicletas eram personalizadas em função das características de cada um, como altura e peso. Eram equipadas com 21 marchas, amortecedor, banco de gel, kit para consertar pneu e uma bolsa presa no guidão. Pedalávamos com luva, capacete e bermuda acolchoada (fundamental).
Pedalamos pelo vale do Rhône, numa região conhecida como Côte du Rhône Gardoise. De repente, nos deparamos com uma cerejeira carregada na beira da estrada. Parecia sem dono. Comemos muitas cerejas. Outras cerejeiras foram surgindo e não resistíamos, parando em cada uma delas, comparando a qualidade da cereja da árvore anterior como se fosse uma dégustation des cerises. O almoço era livre e no livrinho havia diferentes opções de restaurantes, mas eu e meu marido preferimos fazer um piquenique com queijos, patês, baguete e um Côte du Rhône. Adivinhe o que tivemos para sobremesa? Cerejas! Depois nos entregamos a uma siesta à sombra de uma árvore. |
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No caminho, encontramos a van de apoio com nossa guia Caroline. A van da B&R "varre" a estrada para se certificar de que todos estão bem. A equipe de apoio ajuda a trocar pneu, recolhe compras, leva quem estiver cansado e tem um estoque de guloseimas e bebidas. No final da tarde, tivemos uma degustação de vinho no Château de Basted, construído em 1864. Os proprietários, que nos receberam, produzem diferentes vinhos Côte du Rhône, entre eles o delicioso Viognier. No dia seguinte seguimos rumo ao sul para visitar Uzès, uma das cidades medievais mais bem preservadas da França.
Nos instalamos num bistrô para almoçar ao ar livre. Degustei uma bouillabaisse (sopa de peixe típica provençal) maravilhosa! Na manhã seguinte pedalamos até a famosa Pont du Gard. Fiquei fascinada com a grandiosidade e preservação deste aqueduto romano sobre o rio Gardon. De lá partimos para Saint Rémy de Provence, com uma escala na cidade medieval de Barbentane onde visitamos o "Château de Barbentane", que mantém sua decoração original.

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O caminho para Saint Rémy tem uma paisagem bem diferente daquela dos últimos dias. Pedalamos por florestas, alamedas de árvores que se fechavam formando túneis de folhas e por planícies cheias de árvores frutíferas. A luz do final de tarde sobre os campos da Provence é deslumbrante: vai de tons de amarelo ao laranja que se transformam em rosa, chegando ao púrpura. |
Fica fácil entender porque tantos pintores se encantaram com essa região e a retrataram em seus quadros, como Matisse, Gauguin e principalmente Van Gogh que viveu ali nos últimos anos de sua vida, primeiro em Arles e depois em Saint Rémy, internado numa clínica, por opção própria. No dia seguinte, fomos conhecer a clínica onde morou Van Gogh. Pouco mudou desde aquela época. O lugar ainda abriga uma clínica, além de um pequeno museu. Foi emocionante ver de perto os lugares que inspiraram este gênio da pintura. Estão lá, a árvore, o quarto, o corredor, a paisagem vista da janela de seu quarto.
Visitamos também as ruínas da cidade romana de Glanum, nas proximidades de Saint Rémy, construída há cerca de 2.300 anos. Lá estão dois monumentos extraordinários, conhecidos como "Les Antiques": um deles celebra a vitória de Cesar sobre os gauleses e os gregos e o outro é um memorial a Caius e Lucios Caesar. Neste dia tivemos uma pedalada puxada, alguns quilômetros colina acima, na direção de Les Baux de Provence. A estrada era linda. O problema era o fôlego. Em alguns trechos desci da bicicleta e fui caminhando. Três velhinhos de uns 70 anos, todos equipados com roupa de ciclista, pedalando sem apresentar nenhuma dificuldade, tentaram me encorajar: "courage, courage"!!! Adoraria ficar velhinha com esta mesma energia. Meu mal humor logo se desfez quando cheguei ao cume. Nossos guias tinham preparado um piquenique com direito a dois músicos tocando e cantando para nós. Esse era um dos pontos mais altos da região. Era como se estivéssemos num banquete no topo do mundo.

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Embora sem nenhuma vontade de deixar aquele lugar mágico, partimos para Les Baux de Provence! Valeu a pena o esforço da subida. Les Baux é um vilarejo medieval, onde vários artistas e artesãos se instalaram. Suas ruelas estreitas abrigam lojinhas de artesanato, galerias e cafés. A volta no final da tarde foi maravilhosa.
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É uma delícia descer sentindo o vento no rosto. No sexto dia, tínhamos 52 quilômetros a percorrer, com alguns vilarejos encantadores em nosso percurso como, Isles-sur-la-Sorgue, a "Veneza da Provence". O vilarejo seguinte era Fontaine de Vaucluse: uma cidadezinha à beira do rio, cheia de cafés. No final da tarde, chegamos em Gordes. Nosso novo hotel para as duas últimas noites era o Les Bories, no alto de uma colina. A programação do último dia era pedalar pelo Vale do Luberon, visitando alguns vilarejos citados por Peter Mayle em seu livro. Começamos por Roussillon e seguimos para Menèrbes, um vilarejo muito charmoso do século XIII onde Peter Mayle morou. De lá fomos explorar Lacoste, onde viveu o Marquês de Sade. Tudo foi encantador. Embora eu tenha vivido só uma semana na Provence, e não um ano como Peter Mayle, foi uma experiência riquíssima. Principalmente porque a conheci pedalando. É a melhor maneira para se desvendar a magia deste lugar. Vale a pena. É uma viagem para ficar na memória.
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