- Não faz isso, pois pode aparecer um fazendeiro furioso com uma
arma na mão atrás de você!! Isso é roubo!!!
Mesmo com a chance real disso acontecer, eu não resisti. Desci da
bicicleta e roubei. Acho que foi o maior crime que já cometi, mas
não dava para resistir. Comi a maçã verde mais gostosa da minha
vida. Meu marido estava bravo e me chamava de incivilizada para
baixo.
A gente já estava pedalando há algum tempo, quando nos deparamos
com uma enorme plantação de maçã verde, sem cerca nem espantalho.
As árvores estavam carregadas e claro que uma a menos não ia fazer
diferença. Não me arrependo até hoje do meu delito.
Quando passamos em frente aos vinhedos, Marcel já me olhou de lado!
Fiz que não vi, mas se desse eu pegava, e pegava também uma abóbora
gigante, linda, que cruzamos pelo caminho. É claro que eu me esquecia
que as uvas estariam me esperando à noite, no jantar, quando nos
reuniríamos com o resto do grupo, e eu poderia me deliciar com os
melhores vinhos de toda a Vallée du Rhone.
Quando voltamos ao hotel, um castelinho do século dezessete,
tudo o que precisávamos era um bom banho e cama. Depois de cinco
horas de pedalada estávamos cansados, mas aquele era um Hotel
Relais Gourmand, e não demoramos a ficar prontos. Nosso grupo
estava quase todo lá. Das vinte e quatro pessoas, nós éramos
os únicos latinos e talvez por isso os mais interessantes para
eles. O restante se dividia entre americanos, canadenses e neo
zelandenses. Eles eram muito animados e falavam muito. ( Na
verdade, depois de duas horas de jantar e algumas taças de vinho,
perdíamos algumas piadas, mas não era grave, pois estávamos
todos de férias)
O grupo era muito heterogêneo, e tinha desde uma detetive
particular texana até uma ex enfermeira da guerra do Vietnã.
Com eles, só nos encontrávamos à noite, pois estávamos em
lua de mel, e preferíamos ficar sozinhos. No dia em que conhecemos
a Fontaine de Vaucluse, subimos uma montanha suave e chegamos
a uma feira onde tinha todas as delícias da Provence. Ervas,
queijos etc. Compramos de uns franceses simpáticos um vinho,
pão, queijos e frutas secas e procuramos um lugar na estrada
para fazer pic-nic.
-Marcel
num vinhedo
No meio do caminho achamos uma sombra e sentamos. Acho que
ficamos ali uns 40 minutos. Neste dia o passeio acabava na
beira de um rio. Descobrimos que ali poderíamos deixar nossas
bicicletas (sem cadeado!!) e descer 10 quilômetros de caiaque
rio abaixo até um lugar que ficava perto do hotel. A água
do rio era cristalina e tinha uns peixes enormes que nos acompanharam
durante o trajeto. Nós quase podíamos tocá-los, pois o rio
era muito raso. No meio do caminho meu marido resolveu parar
para mergulhar. Apesar da água gelada, nadamos por algum tempo.
E as bicicletas? Os guias levaram de volta para o hotel.
Este passeio durou 7 dias, mas teve tantos bons momentos que
eu poderia escrever um livro. Como por exemplo, a subida (puxadinha!)
a Les Baux. No meio do caminho tinha uma enorme cave onde
era possível fazer degustação de vinhos da região. Outra cave
tinha uma projeção de fotos em suas paredes. No último dia,
não conseguia mais andar de bicicleta, pois tinha forçado
o joelho. Na verdade não podia mais subir, mas descer podia.
Fui de carro junto com outras mulheres até o topo do Mont
Ventoux e de lá descemos até o nosso hotel. No meio do caminho
encontrei Marcel subindo, bufando atrás dos atléticos e simpáticos
guias (o rapaz era canadense e a moça californiana). Depois
vim descobrir que aquele era um pedaço do trajeto do Tour
de France, e ele foi o único que topou fazer. Nada mal!!
Provence tem cheiro de lavanda.
Bianka
Telles, 34 anos, publicitária, fez a viagem de bicicleta
na Provence